terça-feira, 30 de agosto de 2011

Compartilhando com vocês 2

Não consigo parar de pensar no anúncio, aquele...

Imaginei várias coisas, uma delas, um personagem.
Ou melhor, uma.

Mulher elegante, vivida, dinâmica, inteligente, sozinha, sem dinheiro, estado civil divorciada, cpf sem restrições, serasa tudo certo, sai com o jornal de baixo do braço para procurar emprego.
Por ser vivida, encontra dificuldades para mandar seu currículo por e-mail, afinal sabe que sua idade não é mais solicitada.
Resolve sair pela rua, de fila em fila nos poucos anúncios que pedem para entregar o currículo, confiando em um bom impacto inicial.
Não sabe se vai de salto alto ou baixo. Nem se de calça ou saia abaixo do joelho. Não quer parecer masculinizada nem sensual. Preocupa-se também em não parecer mais velha do que já é.
Pela sua idade, pensa que já deveria estar tranquila, mas devido as suas escolhas, não está.
Resolve tomar um banho enquanto continua pensando na roupa.
Sai do banho, bem perfumada e lembra que não deve colocar seu melhor perfume, afinal, pensa nas outras pessoas que estarão ao seu lado e talvez não tenham nem tomado banho. Não quer agredir ninguém.
Abre o guarda roupa decidida. Pega sua melhor camisa branca, uma calça de jeans escura, quase preta, corte reto, separa um lenço para por no pescoço. Roupas íntimas compatíveis com quem usará uma camisa branca e sapato preto fechado na frente e atrás, salto 6.
Pronta.
Não.
Tem que secar o cabelo com secador para deixá-lo bem solto, com ar de tratado, embora não frequente salões de beleza a meses.
Certo.
Maquiagem apenas nos olhos e batom cor nude. Não precisa de pó nas maçãs do rosto porque por qualquer motivo fica vermelha. Até das coisas que ela pensa. Ou de um olhar.
Pega sua bolsa, meticulosamente arrumada desde a noite anterior. Não pode ficar fora o dia todo sem ter o que precisa: celular, dois, protetor labial e facial, lenços umedecidos, carteira, mp3, caderneta para anotações e sua caneta. Indispensável.
Corre até o refrigerador, pega uma maçã, pois sabe que terá fome e não poderá comer na rua. Lava, seca e enrola em um papel toalha, porque quando ela for comer, escondida em um banheiro, precisa ter com o que agarrar sua fruta.
O que a consola é o fato de não engordar, como tantas outras mulheres a cima do peso que ela vê entrando e saindo dos restaurantes.
Resolve não pegar ônibus, afinal não pode correr o risco de ficar em pé, e ter a camisa branca impecavelmente passada, amassada. Vai para o ponto esperar uma lotação. Nome dado para pequenos ônibus que trafégam pela cidade de Porto Alegre.
A primeira passa lotada. A segunda também. Seus pés começam a doer e ela pensa se não deveria ter pego um dos ônibus que passaram no meio tempo. Dureza. Pensa também que pobre não pode ser fresco, e ela é. Muito.
Não queria ser assim, mas desde pequena, sabe quando bebe água mineral, se é alcalina ou ácida. Nasceu assim pobrezinha. Popularmente chamada de coitada. Embora nunca tenha gostado deste termo. Que literalmente quer dizer, quem sofre o coito. E ela, não sabe o que é isso a muito tempo. Afinal, homem está em extinção. E como ela nunca teve inclinação para homossexualidade, fica sozinha.
Para uma lotação. Ufa, que alivio. Agora sabe que da periferia ao centro serão apenas 40 minutos no horário de pico, devido a lotação estar completa. E que após esse período chegará onde deseja. Centro da cidade, para começar sua procura.
Sempre pensou em periferia como cidade dormitório, mas com a facilidade de se deslocar de carro. O que fazem as pessoas que vivem em países justos.
Não foi o seu caso. Nasceu brasileira e segue assim.
Já pensou em acabar com tudo isso. Tiraria sua vida e resolvido. Não veria mais tanta irregularidade, disparidade, injustiça e falta de educação. Mas por ser mãe de família, seu filho necessita dela, então resolveu mudar seus planos. Trabalharia muito, na rua e em casa e morreria trabalhando sem reclamar. Pagaria seus impostos, assistiria o mau uso deles e votaria a cada dois anos. É assim no Brasil.
O dia passou, entregou três currículos e agora só pode esperar.
Confiando em Deus que é só isso que lhe resta. Como todo brasileiro, fé nele. Espera que a chamem pelo menos para uma entrevista.
E esperança é o que não lhe falta porque sabe que seu currículo não é muito interessante para um departamento de rh.






























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